Ilustração de um laboratório com rins encima da bancada

Clearance de Ácido Úrico: para que serve e como interpretar

Entenda o clearance de ácido úrico: o que mede, quando solicitar, como coletar urina de 24h, interferências e como interpretar em hiperuricemia e cálculos.

BIOQUÍMICA

Ariéu Azevedo Moraes

1/2/20267 min ler

Ilustração de um laboratório com rins encima da bancada - Clearence de Àcido Úrico
Ilustração de um laboratório com rins encima da bancada - Clearence de Àcido Úrico

Clearance de Ácido Úrico: o exame pouco comentado que revela “como o rim lida” com o urato

O clearance de ácido úrico estima a capacidade dos rins de depurar urato do sangue por minuto, usando ácido úrico no soro, ácido úrico na urina e o fluxo urinário (muitas vezes a partir de urina de 24 horas). Ele ajuda a discutir o mecanismo por trás da hiperuricemia (ex.: subexcreção renal) e pode ser útil em cenários selecionados, como investigação metabólica de cálculos de ácido úrico e avaliação do manuseio tubular (quando combinado com cálculos como a fração de excreção de urato – FEUA).

Tabela nas Imagens em anexo.

Por que esse tema merece atenção?

Na prática, o cenário se repete: alguém faz ácido úrico sérico, encontra um valor acima do esperado e a conversa termina cedo demais. Só que, em análises clínicas, o número ganha significado quando responde a uma pergunta maior:
O ácido úrico está alto por produção aumentada ou porque o rim está eliminando menos?
É exatamente aqui que o clearance de ácido úrico deixa de ser “curiosidade” e vira ferramenta de raciocínio.

📌 Antes de seguir, vale alinhar um conceito-chave

Antes de avançar no clearance de ácido úrico, recomendamos revisar o artigo sobre clearance de creatinina.
Ele estabelece a base da fisiologia renal aplicada, explicando como os rins filtram, depuram substâncias e como interpretamos esses processos na prática laboratorial.

Leia primeiro aqui e com esse conceito bem consolidado, a leitura do clearance de ácido úrico se torna mais clara, lógica e muito mais proveitosa.

Ácido úrico (urato) e rim: uma visão acadêmica, sem complicar

O ácido úrico (na forma de urato, no pH fisiológico) é o produto final do metabolismo das purinas. A regulação do urato depende muito do rim, porque a molécula passa por filtração glomerular e por um processo de “ajuste fino” no túbulo (reabsorção e secreção, com participação de transportadores). Esse manuseio tubular é um dos motivos pelos quais duas pessoas com o mesmo “estilo de vida” podem ter comportamentos totalmente diferentes de urato.

Leitura rápida:

  • Uricemia (urato no sangue) é o “estoque circulante”.

  • Urato urinário é o “que saiu pela porta”.

  • Clearance/FEUA tentam traduzir o processo renal por trás disso.

Dor e inchaço nas articulações nem sempre são “só inflamação”

Se você chegou até aqui pensando em ácido úrico, dor ou inchaço articular, vale aprofundar o raciocínio clínico.
Preparamos um artigo que explica, de forma clara, quando o ácido úrico elevado pode estar relacionado à gota, quais sinais merecem atenção e como os exames laboratoriais ajudam a diferenciar esse quadro de outras causas inflamatórias.

Leia aqui: Essa leitura complementa o entendimento e ajuda a interpretar os exames com mais contexto e menos achismo.

O que é “clearance” e o que o clearance de ácido úrico mede

Em fisiologia renal, o clearance descreve o volume de plasma que seria “completamente depurado” de uma substância por unidade de tempo. A fórmula de clearance é clássica:

Clearance = (U × V) / P
Onde:

  • U = concentração da substância na urina

  • V = fluxo urinário (mL/min)

  • P = concentração da substância no plasma/soro

Como o V aparece quando a urina é de 24 horas?

Se o paciente coletou urina de 24h e o volume total foi, por exemplo, 1.440 mL, então:

  • 24h = 1.440 minutos

  • V ≈ 1.440 mL / 1.440 min = 1 mL/min

Isso parece simples, mas é aqui que muitos cálculos erram por unidade ou por tempo.

Não confunda: urato urinário 24h, clearance e FEUA

Eles parecem “a mesma coisa”, mas não são.

1) Ácido úrico urinário (24h)

Mostra quantos mg (ou mmol) de urato foram excretados no dia.

2) Clearance de ácido úrico

Transforma a excreção em capacidade de depuração (mL/min), incorporando a concentração no sangue.

3) FEUA (Fração de Excreção de Urato)

Expressa a porcentagem do urato filtrado que acabou excretado, usando urato e creatinina em sangue e urina. A formulação aparece em referências acadêmicas como:

FEUA = (Urato urinário × Creatinina sérica) / (Urato sérico × Creatinina urinária) (×100, se em %)

Por que isso importa?
Porque FEUA e clearance ajudam a discutir mecanismo (excreção reduzida, perda renal de urato, efeitos medicamentosos), enquanto “urato 24h” sozinho fala mais de carga diária.

Quando esse exame é útil

Aqui entra o tom acadêmico que evita exageros: não é exame para todo mundo.

Situações em que pode ajudar

  • Hiperuricemia em que se deseja discutir mecanismo (subexcreção vs maior excreção).

  • Investigação metabólica de litíase (cálculo renal): em cálculos de ácido úrico, o pH urinário e a avaliação metabólica ganham centralidade. A diretriz de urolitíase descreve que pH < 5,5 em urina de 24h indica urina hiperácida e orienta monitoramento de pH na terapia de alcalinização.

  • Discussão de manuseio tubular (principalmente quando FEUA entra como complemento).

Um alerta importante (diretriz de gota)

A diretriz do American College of Rheumatology (2020) traz uma recomendação condicional contra checar urato urinário em pacientes considerados para ou em uso de terapia uricosúrica, reforçando que a avaliação urinária não é “automática” para todo caso.

Tradução Pipeta e Pesquisa: o clearance não é exame “de prateleira”. Ele é exame “de pergunta bem feita”.

Coleta de urina de 24 horas: o que garante um resultado confiável

Se existe um ponto que decide o valor do clearance, é este: coleta bem feita.

Passo a passo (padrão mais aceito)

  1. Escolha um horário para iniciar (ex.: 7h).

  2. Urine e descarte essa primeira urina (ela não entra). Anote horário e data.

  3. A partir daí, colete TODA urina pelas próximas 24h (dia e noite).

  4. No dia seguinte, exatamente no horário final, colete a última urina e encerre.

  5. Mantenha o frasco refrigerado (ou em gelo/caixa térmica) durante a coleta, se essa for a orientação.

Erros comuns que “mudam o exame”

  • Esquecer uma micção (subestima a excreção e distorce V).

  • Estender ou encurtar o período (não são 24h “aproximadas”).

  • Armazenar sem refrigeração quando recomendado.

Dica acadêmica simples: se o laboratório pede também creatinina urinária, ela pode funcionar como um “controle indireto” de completude da coleta (não é perfeito, mas ajuda a desconfiar quando algo está fora do esperado).

Interferências: quando o laboratório precisa ligar o alerta

Aqui é onde um texto acadêmico melhora o desempenho do artigo: você mostra que entende o método, não só o resultado.

1) Vitamina C (ácido ascórbico)

O ácido ascórbico pode causar interferência negativa em diversos testes bioquímicos baseados em peroxidase (método tipo Trinder), incluindo mensurações relacionadas ao urato, dependendo do método e do sistema.

Suplemento “inocente” pode empurrar o resultado para baixo em alguns cenários, não é regra universal, mas é interferência conhecida.

2) Bilirrubina

Há literatura clássica mostrando que a bilirrubina pode interferir em reações acopladas uricase-peroxidase, com implicações na medida de urato em amostras clínicas e em programas de controle de qualidade.

3) Exercício vigoroso e rotina atípica

Fontes clínicas de orientação ao paciente destacam que exercício intenso pode alterar alguns resultados de urina 24h e, quando solicitado, pode ser evitado durante a coleta.

4) Medicamentos

O tratamento e o tipo de medicamento (por exemplo, uricosúricos) mudam excreção urinária de urato e as diretrizes de gota discutem justamente cenários em que medir urato urinário não agrega.

Como interpretar: um roteiro laboratorial que evita atalhos

Pense no clearance como uma pergunta em três camadas:

Camada 1 — O dado é confiável?

  • Coleta 24h foi correta?

  • Volume plausível?

  • Armazenamento adequado?

Camada 2 — O contexto renal geral

  • Creatinina/eGFR alterados?

  • Há desidratação, diuréticos, mudanças recentes de rotina?

Camada 3 — A pergunta clínica

  • Hiperuricemia: busca mecanismo?

  • Litíase: qual o pH urinário e o perfil metabólico?
    A diretriz de urolitíase reforça o pH como variável crítica e cita alvos de pH (por exemplo, 7,0–7,2 em estratégias de alcalinização para cálculos de ácido úrico).

Onde a FEUA entra como “segunda lente”

Se a hipótese envolve manuseio tubular e você tem urato e creatinina em sangue e urina, a FEUA ajuda a contextualizar se a excreção está proporcionalmente reduzida ou aumentada.

Resultado bom não é o que “dá número”; é o que sustenta uma interpretação coerente.

PipetaCalc: use a calculadora para evitar erro de unidade

Se você quer praticidade e consistência no cálculo (principalmente no V em mL/min e nas conversões), use a ferramenta:
Clearance de Ácido Úrico – PipetaCalc

Finalizamos assim:

O clearance de ácido úrico é um exame pouco explorado, mas altamente didático: ele desloca o foco do “valor isolado” para a fisiologia renal aplicada. Quando bem indicado, com coleta de 24h bem executada e atenção às interferências, ele ajuda a discutir mecanismos de hiperuricemia, acrescenta valor na investigação metabólica de litíase e fortalece a leitura acadêmica do manuseio tubular do urato. E caso queira saber mais sobre Clearence de Creatinina, clique aqui, te espero lá.

Ariéu Azevedo Moraes
Biomédico | Fundador da Pipeta e Pesquisa | Descomplicando as Análises Clínicas

Referências

Contos de saúde contados de um jeito diferente
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Um editorial de fim de ano da Pipeta e Pesquisa sobre aprendizados, projetos em construção, gratidão pelo caminho percorrido e votos de um Natal consciente e um 2026 com mais propósito, família e respeito às crenças.

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